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sexta-feira, 13 de maio de 2016

13 de maio sui generis, porém igual em suas desigualdades





Por Júlio Evangelista Santos Júnior *

13 de maio sui generis por se tratar do primeiro dia de um novo momento para uma república que insiste em não amadurecer. Ao passo que  lutamos cotidianamente contra o racismo denunciando as estruturas discriminatórias das instituições brasileiras  em seu Estado de Direito, se comprova nossa tese de que a democracia brasileira passeia entre os conceitos da perfídia e do oportunismo plutocrático, pois além de não respeitar os passos vagarosos da igualdade material, também não respeita o sistema de freios e contrapesos onde o controle do poder pelo próprio poder ainda possui uma visão racista, machista, eurocêntrica, brancocêntrica de relações, ações e atitudes.
Ou seja, embora cada poder seja independente e autônomo, deveria trabalhar em harmonia com os demais Poderes, respeitando os fundamentos e objetivos fundamentais da nossa Carta Magna, o que no Brasil , além de não acontecer, parece esquecer daquilo que parece óbvio, qual seja,  o bem estar comum das pessoas cada vez mais desacreditadas do sistema político vigente e das suas representações nestes espaços de Poder.
Na esteira de uma libertação inconclusa e de uma república democrática que ainda não entendeu sua prerrogativa funcional, tem-se um desaolador panorama social onde pretos e pardos continuam à deriva com seus direitos mais humanos não garantidos e profundamente desrespeitados por aqueles que, por ofício, deveriam trabalhar para que algo fosse mudado, evidenciando e agravando, cada vez mais, os índices assustadores de vulnerabilidade social com os quais nos deparamos a cada estudo, a cada análise e a cada morte por causa externa não explicada, sempre maquiada, quer seja pela notícia que tem lado, pelo imaginário social coletivo que tem cor  e pela opinião pública vendada, vendida e iludida.
Pela luta contra o cotidiano luto, por longevidade e empoderamento. Assim continuamos e honraremos.

* Júlio Evangelista Santos Júnior  é Advogado, tecnólogo em Informática com ênfase em Gestão de Negócios, pós-graduando em Direito Constitucional Aplicado e também sobre Igualdade Racial na Escola,  militante do Movimento Negro, poeta, sambista, candomblecista, membro efetivo da Comissão da Igualdade Racial e presidente da Comissão Especial da Verdade sobre a Escravidão  da OAB SP Subseção Santos, Coordenador do Projeto Educafro Regional Baixada Santista, Conselheiro de Promoção da Igualdade Racial em Cubatão, Coordenador da Câmara Temática Especial de Igualdade Racial do CONDESB e Diretor do Departamento de Igualdade Racial e Étnica da Prefeitura Municipal de Cubatão/SP.




sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Palmares, 20 de novembro de 2015.


Palmares, 20 de novembro de 2015.
por Tumbi Are Nagô de Oyò *

Década de 70, Século XX, Steve Bantu Biko em África do Sul, já dizia o seguinte sobre o que viria a ser consciência negra: “.......numa breve definição, a Consciência Negra é, em essência, a percepção pelo homem negro da necessidade de juntar forças com seus irmãos em torno da causa de sua atuação – a negritude de sua pele – e de agir como um grupo, a fim de se libertarem das correntes que os prendem em uma servidão perpétua....”.
Trata-se de um recorte de texto redigido provavelmente em 1971 na África do Sul. Destinava-se à formação de lideranças da SASO (Organização dos Estudantes Sul-Africanos), como um exemplo do que Steve dizia aos membros de sua organização na luta contra o apartheid sul-africano e que no Brasil serve como referência na luta antirracista.
Brasil, mesma época, o Movimento Negro Brasileiro, bradando por dias melhores, e de preferência sem racismo, estrategicamente elevou a patamar de herói nacional Zumbi, aquele que simbolicamente representava todo o anseio de uma parcela da população que lutava contra um racismo maquiavélico que se transforma a cada questionamento, que cientificamente usa como base um falso e retórico mito da democracia racial que postula a igualdade como base onde  o que deve prevalecer seria uma ‘consciência humana em detrimento a uma consciência negra ou consciência branca  ‘, etc.
Pois bem, falemos de Zumbi, falemos de Dandara, falemos de Palmares, o Quilombo que, em pleno século XVII, trazia no bojo de suas relações os primeiros lampejos de uma república verdadeiramente livre nas Américas. Falemos de Palmares na perspectiva de uma sociedade alternativa que não reconhecia o poder da Coroa e que institucionalmente o/a desafiava estabelecendo negócios e diversas relações comerciais com vilas e povoados vizinhos a ele de tal forma a ser reconhecido como uma comunidade de ‘livre acesso aos que livres não eram’ e onde todas e todos tinhas oportunidades de constituírem família, moradia e relações sem a mácula do modo de produção escravista, desumanizador e letal a índios, africanos e afrobrasileiros.
A estratégia de elevação de Zumbi e da tomada de uma consciência negra (pertencimento e identidade) sobre seu valor e sobre sua contribuição para o país, em plena ditadura, demonstra a sagacidade de um Movimento plural e continental que buscava por todos os meios possíveis romper com o silenciamento e invisibilidade que a questão racial era tratada no Brasil. A escolha da provável data da morte de Zumbi dos Palmares, 20 de novembro, também demonstra a maturidade política de observar a história contada e questioná-la colocando em xeque a historiografia oficial que denota o 13 de maio como o dia ‘mais importante para os direitos da população afrobrasileira’, dia este, aliás, já comentado em textos anteriores como uma data teoricamente vazia do ponto de vista de importância simbólica para a população afrobrasileira, haja visto aproximadamente apenas 5% dos negros à época ainda estarem escravizados, sendo esta, portanto, uma lei pra ‘inglês e o capitalismo verem’ e também uma estratégia imperial, quase republicana, de adequação de todo um sistema a uma nova realidade político-social-econômica onde o que menos importava era a condição do negro da época e sim a situação financeira da já quase república brasileira. 
Menos importava porque  as leis e decisões políticas da época ( Decreto de Imigração Européia de 1890, a queima dos documentos relativos à escravidão, o Código Penal e a ilegalidade da capoeira e do candomblé
 e a ausência de políticas públicas de inclusão da população negra na sociedade da época, por exemplo) demonstraram pouca ou nenhuma preocupação com os negros recém-libertos ou já livres de outras formas, deixando nítida a despreocupação já secular com a situação vexatória e desumana com a qual o negro vivia no Brasil e que hoje podemos traduzir em Racismo Institucional, genocídio da juventude negra, desigualdade de oportunidade e acesso à educação, saúde, trabalho e renda, racismo ambiental, moradia e todos os demais direitos humanos e sociais que possamos imaginar em um país que se diz democraticamente racial e harmoniosamente miscigenado.
Chega a ser redundante a quantidade de textos e artigos que são produzidos a todo 20 de novembro e demais datas simbolicamente importantes para a luta antirracista, quais sejam o 21 de janeiro, o 13 de maio, o 25 de julho, o 27 de outubro, porém Steve Biko, Zumbi e Dandara dos Palmares, Luiza Mahin, Luiz Gama, João Cândido, Zeferina, Tereza de Benguela, entre outras e outros, nos mostram que a luta por igualdade, e também por garantia/reconhecimento/respeito das diferenças, é um desafio de toda a sociedade brasileira e que seus exemplos devem ser referenciados, lembrados e reproduzidos nas atitudes dos mais de 200 milhões de brasileiros e brasileiras que ainda são enternecidos por um racismo à brasileira que dá continuidade ao destino indelével do negro que desde a escravidão só conhece sangue e dor em terras brasileiras.
Portanto:  “.......a percepção pelo homem negro da necessidade de juntar forças com seus irmãos em torno da causa de sua atuação – a negritude de sua pele – e de agir como um grupo, a fim de se libertarem das correntes que os prendem em uma servidão perpétua....”  deve ser interpretado como a necessidade de se pensar uma nova sociedade onde as ideologias de dominação pereçam e o preconceito e a discriminação se diluam, e se despedacem, em um pensamento/ação de efetiva igualdade onde racismo seja só uma referência teórico-político-social a um passado de dor e perdas para a sociedade brasileira. Que o homem e a mulher negros juntem forças com seus irmãos, negros e brancos, para que os mais de 53% da população brasileira tenham igualdade de oportunidades e que toda a sociedade brasileira tenha consciência negra todo dia, principalmente enquanto a consciência humana não deixar de ser racista e preconceituosa.

*Tumbi Are Nagô de Oyò é também Júlio Evangelista Santos Júnior, que é Tecnólogo em Informática com ênfase em Gestão de Negócios, Advogado, graduando em Pedagogia, pós-graduando em Direito Constitucional Aplicado e também sobre Igualdade Racial na Escola,  militante do Movimento Negro, poeta, sambista, candomblecista, membro efetivo das Comissão da Igualdade Racial e da Verdade sobre a Escravidão  da OAB SP Subseção Santos e da Subseção Cubatão, membro colaborador da Comissão da Diversidade Sexual  da OAB SP Subseção Cubatão/SP, Coordenador do Projeto Educafro Regional Baixada Santista, Conselheiro de Promoção da Igualdade Racial em Cubatão, Coordenador da Câmara Temática Especial de Igualdade Racial do CONDESB, Diretor do Núcleo de Estudos Indígenas e Afrobrasileiros da Unaerp Campus Guarujá e Diretor do Departamento de Igualdade Racial e Étnica da Prefeitura Municipal de Cubatão/SP


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Liberdade Religiosa: tolerância não, convivência e respeito!



Ano passado escrevi pouco, mas em todas as vezes que parei para escrever sempre me referi ao racismo à brasileira como aquele tipo de racismo que vem eivado de hipocrisia e  cinismo, aliás traços bem característicos da brasilidade, diga-se de passagem e que, portanto, carregamos em nossos comportamentos estando no bojo das relações sociais em terra brasilis.
Pois bem, infelizmente vivemos em um país racista que na maioria das vezes não admite que o é e se comporta de maneira organicamente reativa a toda e qualquer tentativa de promoção da igualdade racial como que se a abolição tivesse resolvido todos os problemas daquela significativa parcela da população brasileira.
Entendo que a dívida histórica que o Brasil possui com o povo negro parece não comover as atuais gerações da sociedade brasileira e, por mais que as ações afirmativas, quais sejam as políticas de promoção de igualdade racial e étnica e as políticas de enfrentamento ao racismo estejam bastante avançadas em nível institucional, também temos, em sentido contrário,  o racismo institucional bastante pernicioso e perspicaz dentro destas mesmas instituições as quais costumam não assumirem o fracasso coletivo tanto em lidar com o assunto quanto colocar o respeito à diversidade em prática.
Dia 21 de janeiro é Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Dia que lembramos outubro de 1999 quando o Brasil testemunhou um dos casos mais drásticos de discriminação contra os religiosos de matriz africana. O jornal Folha Universal estampou em sua capa uma foto da Iyalorixá Gildásia dos Santos e Santos – a Mãe Gilda – trajada com roupas de sacerdotisa para ilustrar uma matéria cujo título era: “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”.  A casa da Mãe Gilda foi invadida, seu marido foi agredido verbal e fisicamente, e seu Terreiro foi depredado por evangélicos. Mãe Gilda não suportou os ataques e, após enfartar, faleceu no dia 21 de janeiro de 2000.
Pois bem, o Brasil, enquanto Estado Democrático de Direito, é um Estado laico (por mais que não pareça), ou seja, sem religião oficial e, por este motivo, para além do respeito a todas as formas de manifestações religiosas, deve procurar manter, na forma da lei, a liberdade religiosa como direito humano de todas e todos os brasileiros garantindo o que reza nossa Constituição Federal quanto “...à inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias...”, e “....é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva....”, e ainda “....ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei...”
            Para além do cinismo e hipocrisia que (des)estruturam as relações raciais no Brasil, a questão da fé também hierarquiza tais relações e quando o assunto são as religiões de matriz africana ainda temos no Brasil um problema muito sério na relação Estado X Sociedade , Sociedade X Comunidades e Indivíduo X Sociedade, pois no que tange às garantias constitucionais referentes às liberdades de crença e culto, temos nos exemplos os mais diversos inúmeras demonstrações do despreparo do Brasil, enquanto Nação e Estado Democrático de Direito em lidar com a sua própria diversidade religiosa, que o diga etnicorracial.
 Exemplos? Vários, mas aqui alguns poucos, pois nos inúmeros terreiros e casas de axé invadidos, seja por fanáticos religiosos, quanto pela própria polícia (aliás muitos desses casos  não são levados a conhecimento público por medo de retaliação e futuras perseguições), quanto a permanente ridicularização que os adeptos destas religiões passam cotidianamente em seus locais de trabalho, estudos ,  lazer e entretenimento, ou ainda da própria desconsideração institucional dos sacerdotes e sacerdotisas de matriz africana enquanto ministros e ministras religiosos que por muitas vezes foram, e continuam sendo em muitos lugares,  impedidos de simplesmente atenderem seus filhos em hospitais públicos, são algumas das muitas demonstrações do racismo institucional, interpessoal e pessoal, latente e vil que nossa sociedade carrega e não assume.
.A solução passa pelo enfrentamento ao racismo a partir da efetiva implementação de ações afirmativas e das políticas de promoção da igualdade racial e étnica, assumindo com coragem a questão de  colocar na mesa pautas como liberdade religiosa X fundamentalismo e proselitismo religioso, segurança pública X violência urbana e, principalmente, pela necessidade de entendermos que somos um país plural, onde o respeito seja princípio norteador de uma convivência religiosa harmônica e pacífica. Boto fé!!!

*Tumbi Are Nagô de Oyò é também Júlio Evangelista Santos Júnior, que é Tecnólogo em Informática com ênfase em Gestão de Negócios, Advogado, graduando em Pedagogia,  pós-graduando em Direito Constitucional Aplicado, militante do Movimento Negro, membro efetivo da Comissão do Negro e de Assuntos Antidiscriminatórios da OAB Subseção Santos/SP, membro colaborador da Comissão da Igualdade Racial da OAB Subseção Cubatão/SP, Coordenador do Projeto Educafro Regional Baixada Santista, Conselheiro de Promoção da Igualdade Racial em Cubatão, Coordenador da Câmara Temática Especial de Igualdade Racial do CONDESB e Diretor do Departamento de Igualdade Racial e Étnica da Prefeitura Municipal de Cubatão/SP

domingo, 18 de janeiro de 2015

E vai começar tudo de novo.... #Educafro #Valongo #Santos #IgualdadeRacial #UniversidadesPúblicasJá

Sim, é a 15ª turma, 14 anos de luta por mais justiça no acesso à universidade pública! Cheguei no finalzinho de 2001 e não dava mais tempo de ser aluno. Em 2002 fui aluno, em 2002 entrei na faculdade e em 2002 já me tornei coordenador, função que exerço até os dias atuais, diga-se de passagem. Educafro , sigla para Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes, é um projeto social revolucionário sim, pois pensar a educação de forma plural, social, igualitária e plurriracial, em um país como o Brasil, é para poucos corajosos que doam horas, dias, semanas, meses e anos de seu tempo, muitas vezes escasso, para colaborar no projeto de vida de pessoas, negras e pobres em sua esmagadora maioria, que estão fora da universidade pública por conta de um País que nunca prestou contas de uma abolição inconclusa e de uma desigualdade social de proporções continentais que deixa milhões de pessoas sem o acesso mínimo a direitos humanos e sociais dos mais importantes e basilares de uma democracia de respeito como deveria ser a da nossa pátria amada Brasil. A figura ilustrativa dessas breves linhas é a foto tirada no último dia 16 de janeiro de 2015 após uma ótima reunião com os/as professores/as voluntários/as do Projeto Educafro, Núcleo Santos Valongo.
Esperamos conseguir em 2015 dar continuidade a esse projeto de forma a garantir um curso pré-vestibular comunitário de qualidade para os que nos procurarem querendo amor, dedicação, esforço e competências para enfrentar os desumanos vestibulares públicas e a famigerada prova do Enem. 
Mais um ano, mais uma turma e mais cabelos brancos, alegrias, tristezas, mas a certeza de que ao final de mais 12 meses teremos olhos brilhantes na busca por uma tão sonhada vaga na universidade.
Que assim seja e que venha 2015 Família Educafro Valongo. 
Asè!!!!

Júlio Tumbi Are
#Educafro #Valongo #Santos #IgualdadeRacial #UniversidadesPúblicasJá

Combatendo a Intolerância Religiosa


21 de janeiro é dia Nacional de Combate à  Intolerância Religiosa. A data, que é celebrada por todos os praticantes das religiões de matriz africana, servindo como reflexão e motivação na busca pela liberdade do culto religioso e combate ao racismo.


Em outubro de 1999 o Brasil testemunhou um dos casos mais drásticos de preconceito contra os religiosos de matriz africana. O jornal Folha Universal estampou em sua capa uma foto da Iyalorixá Gildásia dos Santos e Santos – a Mãe Gilda – trajada com roupas de sacerdotisa para ilustrar uma matéria cujo título era: “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”.  A casa da Mãe Gilda foi invadida, seu marido foi agredido verbal e fisicamente, e seu Terreiro foi depredado por evangélicos. Mãe Gilda não suportou os ataques e, após enfartar, faleceu no dia 21 de janeiro de 2000.

O Brasil, enquanto Estado Democrático de Direito, é um Estado laico, ou seja, sem religião oficial e, por este motivo, para além do respeito a todas as formas de manifestações religiosas, deve procurar manter, na forma da lei, a liberdade religiosa como direito humano de todas e todos os brasileiros.

A respeito da matéria, nos diz a Constituição Federal de 1988:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

[....]

VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;  

VII - é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva;  

VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;

Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;

 Art. 210. Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais.

§ 1º - O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental.

Escreverei um texto sobre as religiões de matriz africana e o socializarei no dia 21 de janeiro.

Bom dia a todas e todos,

Júlio Tumbi Are

terça-feira, 13 de maio de 2014

O 13 de maio e o racismo hipócrita nosso de todos os dias....

Cubatão, 13 de maio de 2014.

O 13 de maio e o racismo hipócrita nosso de todos os dias....
Por Tumbi Are Nagô de Oyò*

Se no dia 21 de março escrevi um artigo relembrando Shaperville e citando as políticas de promoção da igualdade racial em curso, no dia de hoje escrevo sobre o racismo hipócrita nosso de todos os dias lembrando dos 126 anos da Lei Áurea, tão comemorada à época e duramente questionada nos dias atuais, principalmente pelos movimentos negros  e negros em movimento que referenciam na data mais uma forma de pontuar, e denunciar, o racismo hipócrita nosso de todos os dias.
Hipócrita porque, após a abolição da escravatura, datada de 13 de maio de 1888, a falta de políticas públicas e ações afirmativas por parte do Estado Brasileiro com foco na população negra, recém-liberta da escravidão, ocasionou uma situação de marginalidade de grande impacto social, mas de nenhuma comoção por parte dos cidadãos e cidadãs no contexto social da época, e que perdura, das mais variadas formas, até hoje.
A ausência de políticas públicas para uma população negra que até então juridicamente nem era considerada cidadã, demonstra o alto nível de irresponsabilidade política que um Estado, às vésperas do republicanismo, ao mesmo tempo que extingue a escravidão (1888),  decreta no dia 28 de junho de 1890 a reabertura do país às imigrações européias e define que africanos e asiáticos só poderiam entrar no país com autorização do Congresso, ou seja, esta nova remessa de europeus vai ocupar os trabalhos nas nascentes indústrias paulistas e assim os europeus pobres são usados mais uma vez para marginalizar o povo negro brasileiro, que de escravizado passa a ‘cidadão sem uma real cidadania’ o que nos remete a uma inevitável pergunta: se havia trabalho formal por que não ofertá-lo ao negro recém-liberto?
Pois bem, e quando dizemos que os negros foram/ficaram sujeitos a ‘uma situação de marginalidade de grande impacto social, mas de nenhuma comoção por parte dos cidadãos e cidadãs no contexto social da época’, estamos afirmando que o racismo naturalizou-se em nosso modus operandi de tal forma que a percepção de que o negro é um ser humano ainda precisa ser alcançada pelo imaginário coletivo brasileiro, pois a desumanização que por mais de 350 anos foi a tônica da filosofia escravocrata no Brasil massificou essa forma de ver, sentir, pensar o negro no Brasil com o estigma que virou legado.
Legado este de uma abolição inconclusa, inacabada, de um racismo ‘à Brasileira’, velado, disfarçado, que em nada contribui para o nosso dito Estado Democrático de Direito que busca de forma tardia a devida reparação, a qual, por conta da hipocrisia com a qual tratamos o assunto, só dificulta o processo de busca pela real cidadania de mais de 50% de sua população que convive com alarmantes índices de desigualdade racial, em especial nos dados relativos à violência contra a juventude negra, acesso à educação, saúde e trabalho, mesmo após 126 anos da dita lei salvadora.
Portanto, o desafio da superação das desigualdades raciais no Brasil, perpassa pela compreensão da sociedade brasileira de que são necessários novos patamares nas relações sociais que historicamente são baseadas em princípios escravocratas com ideologias que até os dias atuais contaminam o imaginário social brasileiro traduzidas no racismo nosso de todos os dias, em suas variadas perspectivas, bananas e demais equívocos graves com os quais inadvertidamente lidamos a todo o momento.
Por fim, nunca é demais lembrar que a dita lei não efetivamente libertou e  que  na manhã de 14 de maio de 1888  ‘cidadãos brasileiros sem real cidadania’ foram abandonados à própria sorte nas periferias, morros e favelas.   



*Tumbi Are Nagô de Oyò é também Júlio Evangelista Santos Júnior, que é Tecnólogo em Informática com ênfase em Gestão de Negócios, Advogado, pós-graduando em Direito Constitucional Aplicado, militante do Movimento Negro, membro efetivo da Comissão do Negro e de Assuntos Antidiscriminatórios da OAB Subseção Santos/SP, membro colaborador da Comissão da Igualdade Racial da OAB Subseção Cubatão/SP, Coordenador do Projeto Educafro Regional Baixada Santista, Conselheiro de Promoção da Igualdade Racial em Cubatão, Coordenador da Câmara Temática Especial de Igualdade Racial do CONDESB e Diretor do Departamento de Igualdade Racial e Étnica da Prefeitura Municipal de Cubatão/SP


domingo, 23 de março de 2014

A Shapperville nossa de todos os dias...



A Shapperville nossa de todos os dias...
Por Tumbi Are Nagô de Oyò*

Somos culpados até que provemos o contrário, a presunção da inocência parece não se aplicar aos que descendem dos escravizados, daqueles que, mesmos nos dias atuais, não se deixaram aculturar por completo mantendo o tom azeviche em suas peles retintas, apesar de, ainda, muitas mentes colonizadas de todas as cores.
            Julgados no olhar, arrastados pelas ruas e camburões como cargas ou objetos, somos cientificamente classificados como invasores nos espaços coloniais em pleno século XXI. Nossa cor incomoda sim e faz os comportamentos se alterarem a cada diploma, título ou espaço de poder que conquistamos com o mesmo suor biológico que qualquer outro ser humano, mestiço ou não.
            Nos matam institucionalmente e, falando nisso, a seletividade penal sabe sim quem é preto no Brasil, o acesso à Justiça faz o resto e a violência estrutural joga a última pá de cal. Mães pretas por todo o Brasil sabem, e sentem, o que é terem filhos soltos à própria sorte desde 14 de maio de 1888, sem políticas publicas, sem respeito, sem habeas corpus, sem mandado de segurança ou simples sentenças com procedência favorável, restando somente atestados de óbito mal preenchidos e enterros apressados sem a devida causa mortis apurada ou revelada.
            Jogo mal jogado onde a sociedade mestiça impetra um discurso elitizado de moral social/coletiva genocida onde quem tem, deve ‘ter mais’, e quem não tem ‘que se vire e não nos encha o saco’. Relembro Shaperville e marejo em pensar nos meus irmãos em África: apartheid e guetos, mortes aos montes, direitos humanos violados e comparo, e me preparo todos os dias, pois a estatística não nos favorece enquanto pretos no Brasil: morremos mais, diretos a menos, guetos abrasileirados pelo racismo ambiental e mestiçagem hipócrita e mal sucedida.
            Quem sabe um dia, mas ainda não. Julgados radicais por sempre acusarmos nosso extermínio programado, nos mandaram provar e nós provamos, com dados, corpos e lutas e, agora que provamos, não sabem o que fazer, aí sugerimos alternativas e não aceitam, mesmo com os dados e com a caneta na mão. Tomar a caneta seria a solução? Talvez sim, talvez não. Ocupando os espaços e denunciando o racismo velado, institucional e disfarçado, gabaritando os resultados, invadindo os mestrados e as teses de doutorado, ressignificando o passado.
            Bora pra luta e luto, mais um ano e mais uma  vez, por Shapperville lá e por todos os jovens pretos e todas as Cláudias aqui.
            Axé!

Tumbi Are Nagô de Oyò é Júlio Evangelista Santos Júnior,  Tecnólogo em Informática com ênfase em Gestão de Negócios, Advogado, Pós-graduando em Direito Constitucional Aplicado, militante do Movimento Negro, membro efetivo da Comissão do Negro e de Assuntos Antidiscriminatórios da OAB Subseção Santos/SP, membro colaborador da Comissão da Igualdade Racial da OAB Subseção Cubatão/SP, Coordenador do Projeto Educafro Regional Baixada Santista, Conselheiro de Promoção da Igualdade Racial em Cubatão, Coordenador da Câmara Temática Especial de Igualdade Racial do CONDESB e Diretor do Departamento de Igualdade Racial e Étnica da Prefeitura Municipal de Cubatão/SP